segunda-feira, 22 de junho de 2015

#MaisPauloFreire



Não há ensino sem pesquisa e nem pesquisa sem ensino. O questionamento, a busca e a aprendizagem fazem parte da natureza da prática docente. Inscreva-se  http://goo.gl/c8umi9


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Toda relação ensino-aprendizagem exige pesquisa. O trabalho de pesquisa é uma atividade permanente do professor.


Nas universidades com pós-graduação stricto sensu, com programas de mestrado e doutorado, é comum o trabalho do chamado professor pesquisador -  o cientista que divide o seu tempo se dedicando ao seu projeto de pesquisa, investigando questões contemporâneas, realizando descobertas, desenvolvendo tecnologias, produzindo ciência com seu grupo de pesquisa, publicando os resultados para dialogar com outros cientistas - e por outro lado, ele se dedica também às aulas, tanto na pós-graduação quando na graduação.

Essa relação pode ser muito interessante. Os alunos têm a oportunidade de manter contato com saberes científicos recentemente produzidos pelos próprios professores,
E para o pesquisador, ao elaborar uma forma didática de explicar os resultados, as teorias e os métodos que ele emprega em sua pesquisa, e também ao incorporar os questionamentos e as contribuições dos alunos, seus próprios saberes se transformam.

Mas Paulo Freire argumenta que não é só na pós-graduação que a pesquisa é realizada. Na verdade, o ato de pesquisar não é algo a ser acrescentado ao ato de ensinar, porque pesquisar faz parte da própria definição de ensinar.

Mas é necessário que, em sua formação permanente, o professor se perceba como pesquisador e assuma a dimensão da pesquisa com os estudantes.


Da preparação da aula à orientação dos seminários em que os alunos apresentam os seus trabalhos, o professor está sempre descobrindo coisas novas e aprendendo. Seja qual for a disciplina, as novas descobertas científicas e as novas interpretações sobre os fenômenos da realidade transformam o conhecimento ano a ano.
Com a publicação dos resultados dessas pesquisas recentes nas revistas acadêmicas, os livros didáticos precisam ser sempre complementados ou problematizados pela crítica dos professores e alunos que devem agir de forma ativa na busca desse material.

Por mais que alguém estude, ninguém nunca vai saber tudo, justamente porque o conhecimento não é um objeto consolidado, mas um processo em transformação. Falamos sobre isso nos vídeos anteriores.

E assim como naquela reflexão do filósofo grego Heráclito sobre a impossibilidade de cruzarmos duas vezes o mesmo rio, porque as águas se renovam a cada instante, para um professor pesquisador, a disciplina que ministra novamente neste ano não será idêntica à que ministrou no ano passado.

Nas suas próprias aulas, o professor pode aprender muito sobre o conteúdo de sua própria disciplina que se transforma no decorrer do ano.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Pedagogia da autonomia, capítulo 1



Um dos saberes indispensáveis que o educador deve incorporar, desde o princípio de sua própria formação, assumindo-se também como sujeito, é a noção de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou construção.

Se na experiência de minha própria formação como professor, que deve ser permanente, eu começo por aceitar que o formador é o sujeito em relação a quem eu me considero o objeto,
que o meu professor é o sujeito que me forma, e eu, aluno, o objeto por ele formado,
quando eu me formar professor, eu acabo me tornando um falso sujeito ao reproduzir aquela relação sujeito-objeto com meus próprios alunos.

Mas é preciso que, pelo contrário, desde o começo de minha própria formação, vá ficando cada vez mais claro que, ainda que diferentes entre si, professores ensinam e aprendem com os alunos; e alunos aprendem e ensinam com os professores.

É claro que o professor conhece o objeto de estudo melhor do que os alunos quando o curso começa, mas ele reaprende através dos processos de reestudá-lo e discuti-lo nas aulas, revisar e corrigir os trabalhos dos alunos e incorporar as novas referências que eles trazem.

É nesse sentido que ensinar não é transferir informação de modo unilateral, encher a cabeça dos alunos de conteúdos, como se eles fossem uma vasilha.

Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças, não se reduzem à condição de objetos um do outro.

Esse princípio parte do ponto de vista de uma educação não autoritária, mais democrática e que entende o valor pedagógico do diálogo. E parte também daquela compreensão dos conhecimentos como processos históricos, inacabados e em permanente transformação.

Ensinar-aprender é uma relação humana que exige a participação de professor e alunos como sujeitos desse processo.

Historicamente, antes das escolas, as pessoas aprendiam socialmente. E foi aprendendo no próprio cotidiano que ao longo dos tempos mulheres e homens perceberam que era possível e,  depois, que era preciso trabalhar maneiras, caminhos e métodos de ensinar.

Aprender veio antes de ensinar. Ou melhor, ensinar se diluía na experiência primeira de aprender.
Por isso Paulo Freire argumenta que aquilo que não foi apreendido não pode ser realmente aprendido. Só há validade no ensino em que o aluno se torna capaz de recriar o que aprendeu

E por isso, o processo de aprender, que historicamente esteve interligado com os vários atos de ensinar, é um processo que atinge um campo promissor quando é capaz de deflagrar uma curiosidade crescente para tornar o aprendiz mais e mais crítico, autocrítico e criador.

O ponto alto é o que Freire chama de curiosidade epistemológica, que é aquela curiosidade que se torna rigorosa e sustentada por um método de pesquisa.

E daí vem a sua crítica ao que ele chama de “educação bancária”, aquela onde o professor trabalha para encher os alunos de conteúdo, fazendo com que a formação se restrinja aos atos de depositar informações e exigir que eles guardem na cabeça.

Paulo Freire diz que modelo deforma tanto a criatividade do professor quanto a dos alunos.
Agora, devido à beleza e à força da aprendizagem, alguns alunos ainda conseguem se rebelar e superar o erro da educação bancária.

Para Paulo Freire, é precisamente o gosto da rebeldia e a chama da curiosidade que, de certa forma, “imunizam” o estudante contra aquele modelo que o induz à passividade.


Neste caso, é a força criadora do aprender de que fazem parte a comparação, a repetição, a constatação, a dúvida rebelde, a curiosidade não facilmente satisfeita, que supera os efeitos negativos do falso ensinar.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Condicionamentos ideológicas na escola. Como lidar?




Qual a solução pedagógica para resolver o problema dos condicionamentos ideológicos em todas as práticas educativas, incluindo aquelas que se dizem neutras?

Para início de conversa a resposta, mais uma vez, começa com o rigor ético do educador.
Aquela ética que condena o cinismo, os preconceitos, e que não admite as práticas de denunciar por ouvir dizer, de acusar alguém de ter dito algo que ele não disse, e de cometer falso testemunho para induzir o outro a acreditar na sua opinião.

É a ética que não confunde pureza com puritanismo, que não confunde respeito aos valores fundamentais da humanidade com moralismo – lembrando que Paulo Freire define moralismo como uma perversão da ética.
A única forma de defender a ética em sala de aula é pelo exemplo.

Então, como lidar com as divergências ideológicas na escola?

O próprio Paulo Freire responde.

Solucionamos isso: "Na maneira como lidamos com os conteúdos que ensinamos, no modo como citamos autores de cuja obra discordamos ou com cuja obra concordamos. Não podemos basear nossa crítica a um autor na leitura feita por cima de uma ou outra de suas obras. Pior ainda, tendo lido apenas a crítica de quem só leu a contracapa de um de seus livros.

Posso não aceitar a concepção pedagógica deste ou daquela autora e devo inclusive expor aos alunos as razões por que me oponho a ela mas, o que não posso, na minha crítica, é mentir. É dizer inverdades em torno deles.

O preparo científico do professor ou da professora deve coincidir com sua retidão ética. É uma lástima qualquer descompasso entre aquela e esta. Formação científica, correção ética, respeito aos outros, coerência, não permitir que o nosso mal-estar pessoal ou a nossa antipatia com relação ao outro nos façam acusá-lo do que não fez são obrigações a cujo cumprimento devemos humilde mas perseverantemente nos dedicar."

Por isso é não só interessante, mas profundamente importante que os estudantes percebam as diferenças de compreensão dos fatos.

É importante que eles tenham acesso às várias interpretações, nas mais diversas disciplinas, para que tenham condições de formular as suas próprias ideias.

Conhecimentos não são petrificados. Ninguém sabe tudo. Os livros não trazem tudo. Não chegamos no ponto final do conhecimento. Nenhum saber deve ser absolutizado.

Conhecimentos são pontos de partida. E uma boa formação se revela na capacidade de os alunos relacionarem, interpretarem e transformarem esses conhecimentos e aplica-los em suas vidas.
E para isso é preciso conhecer as divergências e ter consciência das contradições presentes em todo saber.
Por isso é fundamental que os alunos percebam o respeito e a lealdade com que um professor analisa e critica as ideias e as perspectivas do outro.

Não podemos nos assumir como sujeitos da procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos históricos, transformadores, a não ser assumindo a nossa condição de sujeitos éticos.
Pelos mais diversos motivos, nós estamos sempre expostos aos desvios éticos. Às vezes as pessoas mentem e agem de forma antiética para defender uma moral, uma tradição, uma crença, uma preferência partidária ou um interesse particular, legítimo ou não. Mas Paulo Freire argumenta que a transgressão da ética jamais é uma virtude.

Quando ele fala da vocação ontológica do ser mais, é que ele enxerga potencialidades amplas nos homens e nas mulheres que têm a capacidade única de pensar e transformar a sua vida, a sua cultura e a sua história.
Homens e mulheres não são apenas produto de determinação genética, ou cultural ou de classe. Paulo Freire também não parte do princípio de que haveria uma força sobrenatural guiando as nossas vidas, determinando o nosso destino ou interferindo magicamente na história.

Para ele isso é uma interpretação equivocada e que não representa o que há de melhor nas ciências ou nas religiões. Todos devemos assumir a responsabilidade ética pelo que dizemos e fazemos.

Agora, isso não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais e sociais a que estamos submetidos. Mas significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Que os conhecimentos e a realidade não são objetos fechados e inacessíveis, mas são campos de possibilidades.
É isso que ele quer dizer quando escreve que o futuro é problemático. E não inexorável.

Nesse ponto Paulo Freire critica uma certa visão de esquerda que se acha detentora do saber revolucionário e que projeta uma espécie de predestinação, como se aquela visão idealizada do futuro fosse uma consequência inevitável da história.

E critica também aquela ideologia do mercado que, como vimos nos vídeos anteriores, se empenha em nos convencer de que não podemos fazer nada além de aceitar e nos adaptarmos a realidade,
que é apresentada como se fosse um fenômeno natural, e não como um processo social, construído e modificado permanentemente pela ação de homens e mulheres na história.

Por isso, Paulo Freire diz que esse é um livro de resistência a esse mecanismo desumanizador. E ao mesmo tempo um livro que, sem ser ingênuo ou idealista, assume a esperança por uma educação humanizadora. Com liberdade, diversidade e ética.